sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Poor dogs...


Uma coisa que me incomoda profundamente é ver bicho de roupa. Poodle de galochinhas e cachecol, vá lá, combina com a frescura inerente à raça, apesar de que é bem ridículo o caminhar de um poodle calçado: eles ficam saltitantes e tensos, como se estivessem pisando em asfalto quente. Labradores de trench coat até relevo, por dar certa dignidade ao seu porte meio obeso... mas bassê de gola “rulê”, essa não! A figura de um bassê já não é das mais admiráveis: suas perninhas ridiculamente curtas obrigam o bicho a trotar ligeirinho, como um hamster, dando a impressão de que ele está com muita pressa de ir embora, pra evitar o constrangimento. Nada pode ser mais patético e melancólico. E o bicho parece saber disso. Alguém já viu um bassê à vontade vestindo pullover? Quando a gola “rulê” entra em cena, a figura do animal fica ainda mais comprometida. Então não é sabido que gola “rulê” achata a silhueta? Prestem só atenção quando virem um bassê de gola “rulê” na rua: seus olhinhos aflitos denunciam nitidamente a vontade de sumir do mapa. Eles ficam procurando um lugarzinho para se esconder, temendo o vexame de se depararem com um exemplar do sexo oposto, dignamente despido.


O difícil é tentar descobrir porque diabos uma pessoa veste um cachorro. Se eles sentem frio mesmo, por que ainda existe vira-lata vivo em Bariloche? E mais: por que ainda não lançaram uma campanha do agasalho para cachorros abandonados, idosos e friorentos? Eles estão por toda parte, perambulando, seja nos trópicos ou nos países nórdicos e em maior número do que os sem-teto.


Sendo assim, antes de vestir um bicho pense duas vezes e coloque-se no lugar dele. Uma dica: imagine-se peladão ou peladona, de quatro, preso a uma guia amarrada ao pescoço, farejando os postes e levantando a perninha pra fazer xixi. Imaginou? É isso aí: um bassê de gola “rulê” também sente isso.

Surto no cruzamento


Às 19:30, parada num sinal da Borges de Medeiros, Anatércia estava à beira de um peripaque. Desde o início da manhã havia se ocupado de uma série interminável de pepinos domésticos, profissionais e familiares.

Tudo começou com o seu celular bloqueado por engano, pela operadora. Aos gritos com o atendente, ela ameaçou explodir o prédio da VIVO, com um coquetel de água-ráz, pedra de isqueiro e guaraná Antarctica, se eles não fizessem o aparelho funcionar. Quando estava pronta para sair de casa, atrasada para uma reunião, foi abordada pela empregada que, aos prantos, avisava que o cão vomitava um líquido verde e que aquilo só podia ser coisa do diabo. Depois de perder 20 minutos tentando contatar o veterinário, saiu às pressas, sugerindo que a empregada fizesse uma oração pra expulsar o demônio do cão e que ligasse mais tarde para dar notícias.

Na garagem, desolada, descobre que a bateria do carro havia feito o passamento desta para melhor. Inquieta pelo atraso, pegou um táxi e sugeriu que o motorista pegasse o Santa Bárbara, para encurtar o caminho. Num engarrafamento histórico, Anatércia perdeu noventa e três minutos e a chance de chegar a tempo na reunião.

Aconteceu de tudo naquela segunda-feira fatídica. A secretária faltou ao trabalho, a comida encomendada no restaurante estava fria e a menstruação chegou antes da hora, inspirada na calça branca que Anatércia vestia. Com o estômago fervilhando de ansiedade e na iminência de encontrar o chefe, que estava pronto para dar-lhe um esporro cinematográfico, ela recebeu um telefonema do marido, avisando que não poderia ir buscá-la como combinado.

No final da tarde, exausta e com a auto-estima abaixo do nível do mar, Anatércia, muito querida no prédio onde trabalha, foi presenteada com uma oferta irrecusável: voltar para casa com a Brasília 74 do amigo faxineiro, a quem ela sempre dava uma força no final do mês.

A bordo do possante, Anatércia rumou para o Leblon. Estranhou a embreagem baixa e demorou três quarteirões da Presidente Vargas para achar o comando dos faróis. Enquanto dirigia, procurava um pretexto para se vingar do pesadelo em que seu dia havia se transformado. Num sinal da Lagoa, enfim, a redenção: um pivete veio em sua direção com uma ameaçadora garrafa pet, cheia de detergente diluído em água. E antes que ele começasse a esguichar o líquido em seu pára-brisas, ela deu um grito. Saiu desgovernada do carro, abriu o porta-malas, de onde tirou um galão com água, um escovão, uma caixa de sabão em pó e um rodo. Partiu pra cima do menino, deu-lhe uma ducha, seguida de uma chuva de Omo. Esfregou a carapinha do moleque vigorosamente com o escovão, até formar uma massa espessa de espuma. Enxaguou o neguinho paralisado pelo medo e, ato contínuo, passou-lhe, literalmente, o rodo por todo o corpo. Assustado e com os olhos ardendo, ele ameaçou chorar. Anatércia, sem a menor cerimônia, estendeu a mão. O menino entendeu a mensagem e lhe entregou uma moeda de um real. Com a alma lavada, amaciada, centrifugada e enxuta, ela embarcou na Brasília, seguiu cantarolando para casa e, dizem, teve a noite mais tranqüila dos últimos anos.