sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Surto no cruzamento


Às 19:30, parada num sinal da Borges de Medeiros, Anatércia estava à beira de um peripaque. Desde o início da manhã havia se ocupado de uma série interminável de pepinos domésticos, profissionais e familiares.

Tudo começou com o seu celular bloqueado por engano, pela operadora. Aos gritos com o atendente, ela ameaçou explodir o prédio da VIVO, com um coquetel de água-ráz, pedra de isqueiro e guaraná Antarctica, se eles não fizessem o aparelho funcionar. Quando estava pronta para sair de casa, atrasada para uma reunião, foi abordada pela empregada que, aos prantos, avisava que o cão vomitava um líquido verde e que aquilo só podia ser coisa do diabo. Depois de perder 20 minutos tentando contatar o veterinário, saiu às pressas, sugerindo que a empregada fizesse uma oração pra expulsar o demônio do cão e que ligasse mais tarde para dar notícias.

Na garagem, desolada, descobre que a bateria do carro havia feito o passamento desta para melhor. Inquieta pelo atraso, pegou um táxi e sugeriu que o motorista pegasse o Santa Bárbara, para encurtar o caminho. Num engarrafamento histórico, Anatércia perdeu noventa e três minutos e a chance de chegar a tempo na reunião.

Aconteceu de tudo naquela segunda-feira fatídica. A secretária faltou ao trabalho, a comida encomendada no restaurante estava fria e a menstruação chegou antes da hora, inspirada na calça branca que Anatércia vestia. Com o estômago fervilhando de ansiedade e na iminência de encontrar o chefe, que estava pronto para dar-lhe um esporro cinematográfico, ela recebeu um telefonema do marido, avisando que não poderia ir buscá-la como combinado.

No final da tarde, exausta e com a auto-estima abaixo do nível do mar, Anatércia, muito querida no prédio onde trabalha, foi presenteada com uma oferta irrecusável: voltar para casa com a Brasília 74 do amigo faxineiro, a quem ela sempre dava uma força no final do mês.

A bordo do possante, Anatércia rumou para o Leblon. Estranhou a embreagem baixa e demorou três quarteirões da Presidente Vargas para achar o comando dos faróis. Enquanto dirigia, procurava um pretexto para se vingar do pesadelo em que seu dia havia se transformado. Num sinal da Lagoa, enfim, a redenção: um pivete veio em sua direção com uma ameaçadora garrafa pet, cheia de detergente diluído em água. E antes que ele começasse a esguichar o líquido em seu pára-brisas, ela deu um grito. Saiu desgovernada do carro, abriu o porta-malas, de onde tirou um galão com água, um escovão, uma caixa de sabão em pó e um rodo. Partiu pra cima do menino, deu-lhe uma ducha, seguida de uma chuva de Omo. Esfregou a carapinha do moleque vigorosamente com o escovão, até formar uma massa espessa de espuma. Enxaguou o neguinho paralisado pelo medo e, ato contínuo, passou-lhe, literalmente, o rodo por todo o corpo. Assustado e com os olhos ardendo, ele ameaçou chorar. Anatércia, sem a menor cerimônia, estendeu a mão. O menino entendeu a mensagem e lhe entregou uma moeda de um real. Com a alma lavada, amaciada, centrifugada e enxuta, ela embarcou na Brasília, seguiu cantarolando para casa e, dizem, teve a noite mais tranqüila dos últimos anos.

2 comentários:

Ludy_Weber {Lowe} disse...

Ola...
Apenas gostaria de dizer que adoro seus textos, frases, poemas...
Inclui dois deles no meu orkut! Dando créditos a vc, lógicooo!!!
Então obrigada por descrever em palavras o que muitas vezes escuto no silêncio e nao conseguia expressar.
BjBj

Anônimo disse...

Gente, eu amo ler as historinhas aqui, dou muita risada, sao demais, parabens...rssss