domingo, 13 de março de 2011

PODE SER QUE O MUNDO ACABE NO SÁBADO


Vou internar vovó. Porque vovó não vale nada. Tudo bem que ela é mãe da minha mãe. E daí? Minha mãe foi a única coisa boa que ela fez na vida, e assim mesmo se recusou a amamentá-la. Pros peitos não caírem, sabe? Por causa disso, mamãe teve que tomar leite engrossado com farinha. Mamãe foi gorda a vida inteira por causa da vovó. O único homem que mamãe amou foi meu pai. Mas a vovó fez o favor de inventar que a mamãe traía ele e aí ele foi embora. Mamãe fez análise por 30 anos, mas ainda anda meio ressentida com essa história.

O que é, vovó? Já sei, vovó, que a senhora tá com fome, mas o médico disse que a senhora só pode tomar chá e comer goiabada!

Eu dou chá todos os dias pra vovó. Chá e goiabada. Ponto. Ela pensa que é chá inglês, mas eu uso mesmo é folha de arruda, que é pra ver se esse encosto sai de mim.

Claro, vovó, é claro que a senhora vai tomar banho, hoje!

Vovó odeia tomar banho. Mas não é porque ela tá velha e gagá, não. É que eu só dou banho gelado nela. Ela grita, esperneia, me xinga, mas eu amarro ela nas torneiras pra não fugir. Uso sabão de côco, que é pra ver se tira aquela coisa grudenta da pele dela. Pele de cobra, deslizante, úmida... argh...

Não, vovó, o Marcelo não vem dormir aqui, hoje.

Vovó detesta o meu namorado. Detesta qualquer namorado, mesmo que não seja meu. Vovó teve três maridos. Primeiro foi o vovô, que se matou depois de descobrir que ela vendeu todas as jóias da família pra abrir um negócio pro amante que ela arranjou no clube de tricô. Vovó nunca fez tricô. Ela era a tesoureira do clube e vivia dando desfalque. O segundo marido fugiu pro Paraguai. Foi porque era gente fina. Foi pra não matar vovó, que meteu ele num esquema de estelionato. O terceiro marido tá sumido há 17 anos. Os dois foram passar um fim de semana em São Lourenço e ela voltou sozinha, dizendo que ele tinha afundado com pedalinho e tudo no lago do hotel. Ninguém nunca achou o corpo e eu nunca vivi vovó preocupada em achar também.

Já sei, vovó. O técnico prometeu que vinha consertar hoje...

Vovó ama televisão. Ela adorava assistir aquele programa de pôker na TV a cabo. Era a única diversão dela, já que ela anda muito deprimida. Até que um dia a TV saiu do ar. Eu tirei do ar. Cortei o cabo que vai pro quarto dela. Como ela não pode chegar mesmo até a sala, porque eu também dei sumiço na cadeira de rodas, ela fica o dia inteiro olhando pro teto.

Tá bom, vovó. Eu vou ligar pra ver se a sua cadeira de rodas já foi consertada também...

Eu hoje vou internar a vovó. Vou mandar ela pra uma clínica lá em Barra do Piraí. Lá, ela vai ter menos conforto e menos liberdade. Mas eu não contei nada pra ela ainda, não. Ela tá achando que vai ao médico pra ver porque ela anda tendo tantas tonteiras. A glicose dela deve estar batendo no teto. Eu não sei, não, eu acho que ela anda comendo muita goiabada. Fazer o quê? O médico é quem mandou. Pelos menos foi o que eu entendi ele dizer pelo telefone.

Vamos, vovó? O táxi tá esperando.
(...)

Olha, a senhora vai indo na frente, que eu tenho que ir fazer as unhas. Pode ser que dê tempo de lhe buscar ainda hoje. Ou amanhã, quem sabe? Mas se até o final da semana eu não aparecer, esquece. A moça do tempo avisou que pode ser que o mundo acabe no sábado. A senhora quer deixar algum recado pra mamãe?

5 comentários:

Tati disse...

Oi Lena, eu cheguei aqui por conta de um texto seu maravilhoso sobre a casa arrumada. Estava assinado como Drummond, mas imaginei que não era. É seu, não é? Você escreve divinamente. E é muito engraçada!!
Prazer enorme de te conhecer.
E essa vovó, hein? Gente boa é a neta, né? rsrs Beijos.

Leti Abreu disse...

Cruz credo!!! Dá pra ver a ação da genética, kkkkk

Ro disse...

Porque as pessoas ficam colocando textos seus como se fossem de outros autores? Sacanagem isso..Parabéns, vc escreve muito bem, to adorando!

erikaveig@gmail.com disse...

Coitada da velha!Ahahaha

Iraneide Nascimento disse...

Adorei, simplesmente. Parabéns!