segunda-feira, 14 de março de 2011

CIRURGIA DE EMERGÊNCIA



Toca o telefone:

- Tá livre essa noite?
- Quem tá falan... Ah, oi! Não, nada pra fazer...
- Um chopinho?
- Claro, você me pega aqui?
- No Grajaú? Humm... Você não quer ir até a praça Sãnspêna?
- Saenz Pe-nha...
- Na Penha?
- Deixa pra lá... Te encontro às oito e meia.
- Em frente à C & A, pode ser?
- Fechado!

No carro:

- Rebouças ou Santa Bárbara?
- Sei lá... Pra onde a gente vai?
- Escolhe aí...
- Vamos ao “Manuel e Juaquim”. Tem um aqui mesmo, na Tijuca.
- É botequim?
- É... um botequim melhorado. Olha uma vaga, ali!
- Acho melhor, não. Vou parar na rua de trás. É contra os meus princípios dar grana pra flanelinha.
- Princípios? E eu venho andando tudo isso com esse salto? Meu bem, isso pra mim não é princípio, é o fim!
- Tá legal, tem um real aí? Um real só... Esses caras são uns exploradores!

Lendo o cardápio:

- Putz! Quinze real uma porção de iscas de peixe?
- É, Edu,aqui é meio salgado mesmo.
- E além de caro é salgado? Tô fora! Vou pedir um chopp... Você não vai beber vinho, não, né?
- Claro que não. Vou beber água mineral, me deu uma vontade súbita de vomitar.
- Você sabe que eu sou poeta, né?
- Não, não sabia...
- Eu tava pensando no caminho até a Sãnspêna: Lúcia não rima com nada, né?
- Hummm... nunca pensei nisso.
- Eu tinha uma namorada gostosa, a Mônica. Quer nome melhor pra rimar? Filarmônica, alface hidropônica, telefônica, pílula anti-distônica, sílaba atômica...
- Rã, rã...
- Tem espuminha aí?
- Na água?
- Não, no seu sutiã...
- Como é que é?
- Não... olha só, na boa, sem ofensa: é que hoje a mulherada só usa esses troços com espuminha... Maior enganação, né? O seu tem espuminha?
- Olha, Edu, fora o seu chopp, só tem uma coisa espumando, aqui: a minha boca!
- Ih, você é menas bem humorada do que eu pensei...
- Perdi o humor no táxi, a caminho da Praça Saenz Penha-nha-nha!!!
- Tá legal, eu vou tirar a água do joelho. Você me espera aqui?
- Não, Edu, eu marquei de sair com o garçom, assim que você virasse as costas.
- Ah, ah, ah, taí, gostei! Essa é a Lúcia que eu conheço: super espiritualizada...

Quarenta minutos depois, Edu não volta do banheiro:

- Garçom, a conta!
- A senhora aceita um café?
- Com cianureto, por favor.

No dia seguinte, o telefone toca:

- Lúcia?
- Quem tá falando?
- Edu...
- Tá disfarçando a voz por quê? Tá com vergonha?
- Gata, nem sei o que dizer...
- Você nunca soube, Edu.
- Não, na boa. Eu tive uma cirurgia de emergência.
- Como é que é?!!!
- É sério...
- Cirurgia de emergência, Edu? No banheiro do bar? O quê que te que fizeram, um transplante de cérebro?
- Não, escuta, não fica brava, é verda...
- Quer saber, Edu? Eu me lembrei de uma coisa: Lúcia rima com astúcia, com argúcia! E Edu... Edu rima com vai tomar no olho do seu cu!!!

Meia hora depois, no táxi:

- Presidente Vargas, por favor.
- A senhora soube, dona?
- Soube do quê?
- Deu agora, na CBN. Um cara, ontem, no banheiro de um bar, na Tijuca...
- Que cara? Que bar?
- Um cara aí, sei lá. Teve um treco, fechou a glote. O garçom, coitado, teve que fazer uma traques... trasque...
- Traqueostomia?
- Isso! Tra-que-os-to-mi-a com um saca-rolha. Foi uma sanguêra só...  E o cara não morreu, é mole?

Um sussurro amargo foi ouvido no banco de trás.
- Sortudo, filho da puta!

2 comentários:

Leti Abreu disse...

kkkkkk... mas mesmo sem cirurgia, esse Edu era um mala. Não dá pra querer!

Nalva Kuhn disse...

Maravilha de texto.
Malas existem, é uma pena não termos bolas de cristal para evitar a nossa perda de tempo.

Abraceijos